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O que não é performance? Centro Cultural Maria Antonia, USP. 2015

Foto Allis Bezerra

ESCRITÓRIO DE SUGESTÕES MUSICAIS:
MÚSICA PARA APPARATUS BUREAUCRATIC, ELETRÔNICOS, FLAUTA E VOZ

TEXTO POR VICTOR NEGRI

O Escritório de sugestões musicais, de Lucas Almeida e Thiago Salas, é uma performance sonora que utiliza mesa, máquina de escrever, caixa de clipes e gomas de elástico, uma flauta, cadeira e livros, além de circuitos e proto-sintetizadores não identificados. Para que possamos nos situar, começarei o texto descrevendo um pouco as ações que ocorrem.

O “compositor” escreve algo na máquina e leva o papel ao “músico”; este, às vezes impassivo e às vezes surpreso, vai tocando o que lhe chega, com a flauta e a voz. Microfones de contato amplificam os sons dos objetos; alguns deles parecem ser processados num computador que também produz texturas e loops. Os clipes de papel são borbulhos percussivos; as gomas de elástico são instrumentos de corda; a armação de metal da cadeira é rangida por um arco de violino. E percussivo também é o rolo de fita adesiva, quando envolve os objetos da mesa e termina por inutilizar o ambiente de trabalho. Antes, durante e depois de ser destruído, o escritório produz (muito) som.

No primeiro plano, fica evidente a crítica e/ou sátira à instituição da Música com M maiúsculo, ou seja, à tradição musical europeia de concerto, nessa relação rígida e solene entre composição e execução, passando pela dependência da partitura. Perto do m da performance, os dois realizam leituras simultâneas, suas vozes vão pairando e afundando no mar de ruído. Um dos dois lê o índice de um livro de teoria musical, mencionando lições de harmonia, intervalos permitidos e proibidos etc.; o outro lê trechos de O Processo, de Kafka (referência literal ao que estamos vendo nesse escritório, mas também a episódios de burocracia arbitrária e opressora).

Faz sentido que, para falar da própria música, uma performance sonora seja talvez mais apropriada do que uma composição ou apresentação musical (ao afirmar para si um outro lugar). Mas o que, num olhar mais amplo, justificaria essa escolha?

Creio que, no Escritório de Sugestões Musicais, há outras coisas em jogo. A começar pelo uso do ruído, tanto no sentido de não filtrar a informação indesejada (os sons que, estando fora da partitura, “não pertencem” à interação entre compositor e músico) quanto na amplificação e distorção extrema dos sons de objetos, gerando outros sons e outras percepções estéticas complexas — ou seja, no mínimo, relativizando noções de “agradável” e “desagradável” e outros automatismos.

Uma relação atenta com o ruído pode nos levar a uma posição interessante diante dos sons cotidianos: revelam-se detalhes e interações que antes estavam ocultas. No entanto, por mais deslumbrante que seja essa escuta, e por melhores que sejam as intenções, é fácil esquecer-se de que a contemplação implica algum privilégio. O próprio John Cage, referência inevitável sobre o assunto, também em diálogo com a instituição Música, dizia-se satisfeito com “os sons como são” porque neles não há uma voz dizendo algo (como há numa composição musical). Mas seria mesmo aleatório o modo como temos de viver e pagar as contas (ações que, por sua vez, produzem sons)?

Como contraponto, podemos nos lembrar de R. Murray Schafer, outro dos nomes recorrentes, investigador da paisagem sonora e das relações de poder que nela historicamente se manifestam: de um lado, barulho autorizado para a Igreja e, depois, para a Indústria e os carros (e o rádio e a TV); de outro, leis convenientes proibindo o som de vendedores e artistas de rua.

Por esse caminho, aplica-se aos sons a mesma problemática aplicada aos gestos banais que se dão nas performances em geral (e em boa parte da arte e das ciências humanas). No percurso inverso, a crítica a essa contemplação privilegiada retorna às (ainda poucas) pessoas que discutem sutilezas e picuinhas da arte — e ainda, um suposto potencial revolucionário dessas sutilezas, o que pode não passar de uma cortina de fumaça: “agora teremos uma experiência libertadora; agora acabou; voltemos à rotina”.

Por exemplo, nas paredes de algumas estações de metrô de São Paulo, há poemas de grandes nomes do cânone literário que disputam a atenção de pessoas com as centenas de slogans e cartazes publicitários. Na estação Paraíso, ainda, há uma escultura separada do público por uma faixa no chão e, na parede, temos uma foto da mesma escultura com a faixa (como numa lata de pó Royal) e o aviso: “Não ultrapasse a faixa de preservação da obra de arte”. São reafirmados, portanto, limites precisos (e solenes) para a experiência estética, a sensibilidade, o inconsciente, o que seja essa coisa. Fantasiadas de democratização, estão a burocracia, a tecnocracia, a opressão: “isto sim é arte”; “você está pronto/a para ascender a este nível de humanidade? Ainda não? Que pena! Volte ao trabalho”.

Diante desses limites solenes e do imperativo de voltar ao trabalho é que vejo o Escritório de Sugestões Musicais. Há um compositor e um músico num escritório de fazer barulho, uma máquina de escrever noise, formalidades e protocolos amplificados; gestos e palavras frias que afundam cada ação no caos. Adentrando uma performance, de certa forma pisamos num sonho, vemos materializar-se na nossa cara alguns desejos, sensações ou narrativas inconscientes, convertidas em gestos e objetos. Neste caso, visitamos um pesadelo burocrático, repartição em que trabalham fazedores de música que são também produtores de ruído. Ou seja, exercendo suas funções, eles realizam também aquilo que é (em teoria) o oposto do que deveriam estar fazendo. Fazem seu trabalho e, nessa ação, revelam que ele é inútil.

Nessa consciência do gesto, junção de estética e ética, talvez é que resida a fronteira entre a apresentação/composição musical e algo que possa ser chamado “performance sonora”. De certo modo, nesta, é imprescindível a noção de que um trabalho artístico é produto de um contexto social e econômico — ao passo que compositores e músicos frequentemente se permitem “esquecer” esse dado e crer que sua arte é dissociada de tudo. A esse isolamento da música se refere o Escritório, mas creio que também a uma perspectiva mais ampla: a de escavar a banalidade até que dela comece a sair uma enxurrada de barulho caótico. Aí, com esse barulho às claras, já não tão naturalizado, podemos dar algum passo adiante, no que quer que seja.

Este texto foi produzido originalmente para a publicação “O que não é Performance?” decorrente da mostra homônima realizada em 2015 no Centro Universitário Maria Antônia - TUSP. Realização Sem Título s.d.

Experimenta Som. SESC Sorocaba, 2014. Foto Maína Fantini